Aprendendo Pela Dor

     Para entender meu problema e o que passei diante de tantos desacertos, exageros e atitudes insanas, eu só posso reconhecer e aceitar que já nasci alcoólico, que ainda o sou e vou sâ-lo até o fim dos meus dias. Isso é um fato.

    Por ter nascido alcoólico, poderia ou não ter me transformado num bebedor-problema, pelo menos fisicamente falando, pois a doença já fazia parte do meu organisms. E emocionalmente? Também. Espiritualmente? Idem.

    Comecei a ser um bebedor-problema quando começaram a acontecer coisas em minha vida que eu não quis aceitar e às quais não quis me adaptar, buscando no álcool uma fuga.

    Na ocasião, eu ia completer dezoito anos e a partir dali não consegui parar mais. Não digo parar de beber. Eu não consegui mais beber sem que a bebida causasse problernas para mim e para outros. Durante uns bons dez anos, o álcool tornou-se senhor absoluto de minha vida, minha obsessão.

    Muitos desencontros, murros em ponta de faca, muito ódio e desejo de autodestruição, muita culpa e vergonba, muita decadêneia, muito desprezo por mim mesmo e pela vida. Sem nenhuma chance, sem nenhuma condição de viver, de acertar, nem mesmo de tentar. Talvez a lição dolorosa, mas necessária: se não fosse assim, não teria aprendido. O remédio amargo para chegar a uma condição de amadurecimento também necessário.

    Passar pelo infemo para poder estar cm condições de trithar um caminho seguro, que leva ao "céu", à paz.

    Cheguei em A.A. com vinte e seis anos, completamente perdido, revoltado e muito doente, cheio de autopiedade. Os companheiros me receberam com amor, amizade e respeito à minha dor. Fiquei e entendi que nao tinha chance de beber normairnente, que alcoolismo é doença progressive e incurável, sem espaço para o primeiro gole.

    Lembro que, cm minha primeira noite em A.A., durante a reunião eu chorava muito (1ógico, estava alcoolizado) e havia um sentimento de tristeza muito grande, simplesmente porque eu percebi que não poderia, nunca mais em minha vida, beber.

    Recebi ajuda dos companheiros. Uma companheira de Al-Anon deu-me roupas, passei a trabalhar como ajudante de pedreiro e fui levando. Só que depois de quatro meses, acabei recaindo. Ora, o que faltou?

    Penso que faltou não só entender o Primeiro Passo, mas senti-lo. O programa de A.A. requer honestidade, num grau mínimo que seja, caso contrário não hd recuperação. Eu penso que não havia nenhuma necessidade de recair, ou seja, de sofrer mais, para convencer-me das verdades de A.A., passadas para mim através dos companheiros. Poderia muito bem ter dado tempo à recuperação, acho isso fundamental - aliás, a sobriedade vem com o tempo de abstinência. A surra que levei na recaída veio a convencer-me daquilo que eu não quis ou não pude aprender simplesmente por amor. Eu creio que quando se tem um pouco de humildade, não se precisa sofrer tanto. Se antes de A.A. eu me gabava por acreditar que bebia quando queria e parava também, depois que conheci a Irmandade e recaí, não consegui mais pensar desse modo. Senti na pele a minha total debilidade com relação ao álcool.

    Sabemos que a recaída faz parte da doença, mas não da recuperação. Para mim, a recaída serviu somente para ensinar, pela dor, aquilo que A.A. pode ensinar por amor. Aprendi a me lembrar que não fiz nada para parar de beber, não tinha nenhum recurso, não parei de beber com meu próprio esforço. Parei pela misericórdia de Deus, que éo Poder Superior na forma em que O entendo.

    Quem sou eu para criticar aqueles que, apesar de anos de abstinência, recaem? Para mim foi uma luta terrível, que só foi vencida quando me rendi. É interessante isto, basta render-se, basta parar de lutar, para ver-se livre da obsessão alcoólica. Que maravilha, não é?

    Faz pouco mais de seis anos qtte estou de volta cm A.A., depois de minha recaída. Convicto de que com a bebida não tenho nenhuma chance -- e nem quero ter. Vivo uma vida relativamente normal. A luta existe, mas hoje é direcionada contra mim mesmo, isto é, contra minhas imperfeições, medos e inseguranças, e contra o que é, talvez, o pior dos defeitos (como está escrito no Quarto Passo): o orgulho.

    A.A. coloca em minhas mãos a responsabilidade de crescer ou não. De me rnodificar ou não. Falta muita coisa. Mas tudo tem o tempo certo, não há porque correr, não há porque ter pressa. Tenho condições, com o Programa, de olhar o passado, tudo o que fiz, para extrair a lição. Tenho condições e devo constantemente estar atento ao presente e às minhas ações, para ter o vislumbre de como pode ser o meu futuro. E tudo vai bem na medida cm que eu for conseguindo entregar minha vontade nas mãos d'Aquele que tudo pode e tudo sabe--desde que eu permita que Ele tome as rédeas da situação. Entregar a vida e a vontade é entregar tudo, para que possa realmente funcionar.

    Difícil, mas não impossível, porque vejo por minha própria experiência que, se eu não tentar, não vou saber o que é pior: estar sem beber ou estar bebendo. E é horrível viver na dúvida.

    Espero, companheiros, nunca me faltar a sanidade para reconhecer que tudo o que eu preciso para viver em paz e cm relativa felicidade, eu posso encontrar em A.A., no Programa de Recuperaqdo contido nos Doze Passos e em nossa literature.

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